one.

there is some sort of unbearable cadence on the way that i always see your face when i close my eyes.

folhas caídas.

abri a porta de casa e achei que entrava na rua. as cores de inverno espalhadas pelo chão, secas. uma árvore despida no meio da sala. tu estavas no escritório, ao computador, cheguei à porta. perguntei-te o que faziam tantas folhas ali, corredor fora. respondeste-me, tu amas o outono. lá fora notei que os senhores de verde varriam a rua. as árvores já estavam todas nuas. passou uma rapariga lá em baixo (acho que era eu se não te tivesse conhecido) que seguiu com os olhos tristes o arrumar do resto da estação. e tu, tu meu amor, nesse dia roubaste um outono só para mim!

amanhã.

sento-me à beirinha do muro que dá para o rio e espero que o vento me derrube: queria lavar o corpo por dentro como por fora mas não tenho coragem. o dia está quase no fim e eu temo amanhã.
não te ouço chegar. prendes-me a cintura aos braços, ou os braços à cintura, nem sei, e dizes baixinho que me guardas. o sol começa a fugir, pé ante pé, como se fosse para não darmos conta, e acaba por desaparecer atrás do convento de santa clara. o meu peito arde.
a lua sorri e anuncia a noite. as tuas mãos continuam na minha cintura e o meu rosto cheio de lágrimas. inclino-me na tua direcção e digo: guarda-me, sim, por favor, que eu não sei se aguento o chegar da aurora.