a janela.

vivemos em dias de inverno e eu não sei fechar a janela que arrefece a casa. lembro-me de que quando a abriste o sol brilhava e eu nem dei por isso. mas o fecho avariou e eu não sei que faça. já chamei pessoas para a arranjar, o frio gela-me os ossos de manhã e à noite impede-me de descansar. ao início dos dias cinzentos tentei parafusos, já em época de folhas caídas experimentei maçanetas novas, a janela não quer fechar. eu faço força, eu dou-lhe jeitos, eu viro a casa ao contrario, mas a maldita não quer fechar - e eu, meu amor, tenho frio. vivemos em dias de inverno e no verão tu abriste a janela contra o meu peito.

a carta.

a mulher mais feliz do mundo entrou-me nos olhos pela porta da frente e eu não a reconheci.
era velha e usava roupas cinzentas e coçadas que lhe tapavam toda a pele, na cabeça um enorme chapéu. na mão tinha um ramo de flores, velhas como ela, mas tristes e feias, que me arrepiaram a sede de viver. aos pés um gato pardacento e calmo. ela ia a caminho de casa e eu segui-a sem propósito, já que o caminho que ela seguia era também o que me levava ao meu destino.
ao passar o portão, ia a sair o carteiro que a ficou a ver abrir a caixa de correio e tirar de lá um envelope escrito à mão, com uma letra lisa e recta e ar de contentor de segredos. ela sorriu. ele notou-me e disse-me baixinho que o marido lhe escrevera um poema e o tinha posto na caixa do correio, no meio dos envelopes das contas que ele mesmo lá ia deixar, como em todas as outras quartas feiras, sem falhar nenhuma.
no caminho lembrei-me de toda a viagem que fiz atrás dela, sem saber que os meus passos seguiam os da mulher que eu gostava de ser.

regresso.

cheguei a casa, silêncio. pousei a mala no chão. gritei: cheguei a casa! silêncio.
ao fundo do corredor a mesa, uma carta, uma despedida?
no fundo do corredor a mesa, uma folha em branco, nada.
será que te foste embora? terei-te eu dito que chegava outro dia? por vezes tenho coisas assim, em que me engano nas palavras inconscientemente, como se na minha cabeça se vivesse uma outra realidade, neste caso um outro calendário.
acho que não foste embora. não sei. não quero pensar nisso agora. acabei de chegar.
atiro o casaco para cima do sofá, o corpo para cima da cama. quero dormir até te ouvir entrar.

cheguei a casa. silêncio. uma mala à porta - voltaste-me!
ao fundo do corredor a mesa, a folha em branco no chão, um recado?
no fundo do corredor a mesa, um desenho teu, triste.
eu sei que me atrasei, desculpa, fui comprar-te flores. bem sei que não gostas que se colham flores mas queria dar-te flores hoje, é bonito. demorei mais do que devia, queria estar em casa com as flores, ao fundo do corredor, quando abrisses a porta.
acho que te foste embora. espero que não tenhas ido longe. desculpa-me o atraso, por favor!
o teu casaco em cima do sofá, o teu corpo em cima da cama, afinal não saiste. o meu corpo junto ao teu.
bem vinda a casa, amor!