a flor.

está calor. sinto ar perder-se na minha garganta a caminho para os meus pulmões e há momentos em que temo que nunca chegue ao seu destino. sento-me na beirinha do muro e olho para baixo sem querer olhar, porque tenho medo de alturas e não gosto de pensar que posso cair. tento não pensar que posso cair, tento não pensar em nada. e como sempre que penso que não quero pensar, penso em ti e na inquietante falta que me fazes. bato com força com os calcanhares descalços contra o muro áspero e lembro-me que me esqueci de que também existe dor fora do meu peito. sorrio complacentemente comigo mesma, bebo um gole de água que era fresca há cinco minutos quando a comprei e que agora está a caminhar para o quente, passeio pelos meus ombros a garrafa molhada numa inútil tentativa de refrescar a pele que já arde, escondo a garrafa na minha sombra e deixo-me ficar a olhar com ternura para aquela flôr pequenina que despertou ontem de manhã aos pés do sítio no muro onde me sento sempre - sei-o porque não estava lá na tarde anterior - e que me fez companhia durante todo o ontem. tento novamente não pensar em nada, sinto a cabeça quente e temo que o cérebro rebente à menor actividade, mas penso em ti. estendo os braços para a carteira e tiro o bloco e a caixa de aguarelas. desenho para ti aquela flôr, que é pequenina e simples e que é frágil e está quase sempre sozinha ao sol e que sente de certeza a tua falta, mesmo sem nunca te ter visto, por pura solidariedade para comigo, que já lhe falei tanto de ti. despeço-me dela e prometo a ambas (a mim mesma, e à flor) que amanhã lhe tiro uma fotografia.

hoje é amanhã e alguem a matou. odeio pessoas que colhem flores!

comboio.

hoje é sexta feira e a chuva, gasta pelo correr da semana, é parca. o sol começa a esticar-se devagar, devagarinho, e a estender-se sobre o chão, sugando as lágrimas que o céu deixou cair à tua ausência. hoje é sexta feira, meu amor, e tu corres para mim de braços abertos. hoje é sexta feira e vamos ter um jantar, a família em volta da mesa, a tua família, o teu coração a bater no meu peito. hoje é sexta feira, hoje é sexta feira, e o comboio que chega do Porto pára na estação às 19h45, eu vou-te esperar.

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já não sinto o meu corpo encaixado na minha pele. fora do meu corpo há música, e é música que toca bem alto e que tem muitas notas bem graves. como a dor é grave, assim são as notas. tenho o corpo estendido no chão, e o chão está frio, e no ar há música. tenho o corpo envolto em vibrações. não o sinto, mas há som. não o ouço. dentro de mim há silêncio. dentro de mim o silêncio grita, pede paz, suplica. fora do meu corpo há música e por dentro nada. o silêncio é nada. o silêncio são gritos lascivos de dor, grave como o som. repito-me. a cadência que me faz tremer a ponta dos dedos dá lugar ao descompassar do meu coração. hiperventilo. fora de mim há vida, dentro de mim não há.

eu amo-te. o passado dói como uma lâmina, mas eu amo-te e vai ser assim para sempre.

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gastaste as palavras pela rua, meu amor. gastaste os tempos, os sons e as melodias, gastaste as histórias, os momentos, gastaste os lugares e as novidades, gastaste a vida pela rua, gastaste a rua com os pés, gastaste tudo. gastaste o sol e a praia, o frio e a neve, o canto dos pássaros no jardim, a noite e as estrelas, gastaste as lágrimas, os sentimentos. gastaste-me por dentro, esvaziaste-me de mim. esvaziaste-me de ti.
volta o tempo atrás, meu amor. e devolve-me o amor, devolve-me os sentidos e os sorrisos, devolve-me o brilho da lua reflectido nos teus olhos, devolve-me a paz do teu abraço e a emoção contida nos teus beijos. devolve-me a vontade de acreditar! o passado é inútil como um trapo, e já te disse: as palavras estão gastas.