quote

A sua dor era tão grande que pondo a mão na sua fronte sentia todo o seu esqueleto.
O ómnibus que o conduzia resvalava agora barulhento de ferragens pela Avenida monumental, e esse ruído acre, unindo-se às luzes imensas que o fustigavam zebrando-se através das vidraças telintantes, dava bem a expressão rítmica da sua alma actual. A sua alma de hoje era toda vidros partidos e sucata leprosa.


Mário de Sá-Carneiro - Mistério

paradoxo.

miss moon says:
eu morri, vanessa, eu morri.
vanessa says:
nao sejas parva ana maria, isso é tao paradoxal!
miss moon says:
eu sou um paradoxo então, mas um que morreu.
vanessa says:
cala-te senao apanhas!
miss moon says:
pronto então, se não fosse demasiado paradoxo eu diria que morri.
vanessa says:
menos mal, mas não o digas...
(...)



enganas-te, o mal é na mesma medida. o meu coracão é uma ilha deserta, sem relva, árvores, pássaros, nada. o meu coracao é um corpo despido de alma, uma casca, um vazio. é o mesmo, eu morri. paradoxo ou não, pouco me importa. nunca fui muito afeita a etiquetagem. eu morri e pronto, morri.
foi preciso eu cair para ver as tuas mãos a levantar-me.
fazemos assim: eu tento partir e tu mostras-me que devo ficar.
ele fingiu que a amava, e ela fingiu que acreditava e que sorria. o mundo fingiu que não via o fingimento e deixaram-se ficar todos assim.
foi assim durante muito tempo: ele fingia que gostava de a ver e ela fingia que acreditava. uma vez que se fechava a porta ele suspirava, ela suspirava, e seguiam cada um o seu rumo. entretanto o mundo fingia que não via

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hoje não sei escrever. não sei definir as letras que cada palavra contém nem o som a que pertencem, porque hoje não sei escrever. hoje não sei organizar as ideias nem confiar nos meus instintos (se os tenho) para descrever os sentimentos - e porquê?, perguntaste-me. porque perdi o rumo. folheei as páginas da história e decidi-me a ler até ao fim (mas não o fiz, tive demasiado medo), entretanto tirei sem querer os dedos que marcavam a página em que tinha ficado, e quando tentei encontrá-la ela já não estava lá. acho que perdi a página - disse-te. tu sorriste e disseste-me que havia sempre novos livros para ler. mas eu não sei ler. hoje não sei escrever porque não sei ler. hoje não sei fazer nada.
sento-me no sofá e deixo-me ficar a pensar em coisas tristes e em como este maldito tempo me sugou a vida. percebo agora que não sei respirar com o livro fechado.

partida, chegada.

esta noite saiste do barco, foste fumar um cigarro e apanhar ar.
o marinheiro acenou-me, tinha pressa, queria seguir viagem.
eu gritei para te chamar mas tu não me ouviste (ou não me quiseste ouvir?).
o barco partiu sem ti, comigo lá dentro.
tu ficaste na costa.